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17/03/2017

Por Miguel Esteves Cardoso

COMO É QUE SE ESQUECE ALGUÉM QUE SE AMA?


COMO É QUE SE ESQUECE ALGUÉM QUE SE AMA?

 

 

 

 

 

 

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

 

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

 

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

 

 

 

Resultado de imagem para como se esquece alguém que se amaMiguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Miguel Esteves Cardoso é um crítico literário, escritor e jornalista lisboeta, bastante considerado em Portugal; apaixonado por rock, teve estreito contato com as bandas New Order, Joy Division, The Fall e Durutti Column, quando de sua estadia estadia no Reino Unido e cedo começou a escrever sobre rock em jornais alternativos portugueses. Na década de 1980, funda com Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho a Fundação Atlântica, a primeira editora portuguesa independente, produzindo discos de grupos como a Sétima Legião, Xutos e Pontapés e os Delfins, todos grupos identificadíssimos na cena roqueira lusa. Nos finais dessa década, funda com Pedro Paixão e Paulo Portas o semanário "O Independente", como um contraponto conservador e elitista, mas simultaneamente libertário e culto, à imprensa esquerdista que prevalecia na época e que teve colaboradores como Agustina Bessa Luís, Vasco Pulido Valente. Na década de 1990 dedicou-se mais inteiramente à Literatura, tendo publicado vários livros de sucesso no país irmão.

 

 

 

 

 

 







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