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30/07/2017

Artigo de Olavo de Carvalho

O PARADOXO ESQUERDISTA


O PARADOXO ESQUERDISTA

 

 

Vivenciar conscientemente o tempo histórico em que transcorre a nossa existência é um privilégio, um dever e um direito da inteligência individual, que não alcança sua plenitude senão absorvendo e integrando as tensões e mutações do ambiente maior em torno.

 

Resultado de imagem para o paradoxo esquerdistaDesde o início do século XX, esse direito foi negado a várias gerações de seres humanos, induzidos a viver uma história fictícia no mundo paralelo das militâncias ideológicas e a atravessar a existência em pleno estado de ignorância quanto aos fatores reais que determinaram o seu destino. A ilusão socialista não consiste somente num erro de previsão quanto aos objetivos finais. Se fosse assim, seria apenas o final trágico de existências nobres. Mas a expectativa falsa quanto ao futuro já falsifica a vida presente: ela perpassa toda a biografia de cada militante, tingindo de farsa e auto-engano cada um de seus atos e pensamentos, mesmo os mais íntimos, pessoais e aparentemente alheios à luta política.

 

É só estudar as vidas de Marx, de Lenin, de Stalin, de Mao, de Guevara, de Fidel Castro, de Yasser Arafat, ou de seus acólitos intelectuais, os Sartres, Brechts, Althusseres e “tutti quanti” para entender o que estou falando: cada um desses homens que tiveram nas mãos os destinos de milhões de pessoas foi um deficiente emocional, cronicamente imaturo, incapaz de criar uma família, de arcar com uma responsabilidade econômica ou de manter relações pessoais normais com quem quer que fosse.

 

Para compensar o aborto moral de suas vidas, criaram a idealização pomposa do “revolucionário” - isto é, deles próprios -, como a encarnação de um tipo superior de humanidade, adornando com um toque de estática kitsch à mentira existencial total. Eles não são personagens de tragédia. A regra essencial da tragédia é a ausência de culpa. O herói trágico não pode estar abaixo das circunstâncias, não pode ser um perverso, um fraco, um idiota incapaz de arcar com a própria vida. Ele fracassa porque entra em choque com as exigências superiores de uma ordem cósmica invisível. Seu único delito é não ser sobre-humano numa situação que lhe impõe desafios sobre-humanos.

 

Resultado de imagem para o paradoxo esquerdistaMas perceber a falácia intrínseca da promessa socialista não é um desafio sobre-humano. É um dever elementar de qualquer inteligência média que se disponha a examinar o assunto objetivamente. Aqueles que fogem a esse exame, transferindo a partidos, a movimentos ou à “opinião pública” as responsabilidades da sua consciência individual, renunciam ipso facto à dignidade da inteligência e se consagram a uma luta obstinada e fútil contra a estrutura da realidade. Vai nisso uma mistura de vaidade adolescente, de revolta gnóstica e daquele orgulho satânico que é a compensação quase automática da covardia existencial.

 

Tudo isso é lamentável, mas não é trágico: é grotesco. Não há tragédia no fracasso do socialismo: há apenas uma palhaçada sangrenta. O modelo dos líderes e dos ídolos intelectuais é repetido, em série ilimitada, nas vidas de militantes, simpatizantes e “companheiros de viagem”, acabando por espalhar-se entre o público geral.

 

O rancor sem fim contra pais e mães, a destruição da unidade familiar, o ódio às exigências morais das tradições religiosas, a busca desesperada de sensações por meio do consumo de drogas, a reivindicação pueril do “direito ao prazer”, a transformação do erotismo numa escalada de exigências ególatras que começa no protesto feminista e culmina na apologia aberta da pedofilia e do incesto, a disseminação de técnicas pedagógicas que estimulam a delinqüência infanto-juvenil, tudo isso é a projeção ampliada do estilo de vida dos “grandes revolucionários”, espraiada no tecido da sociedade, a ponto de já não se reconhecer como tal e transfigurada num sistema de obrigações éticas, base de julgamentos, acusações, cobranças e chantagens. O fundo de tudo é o ódio à realidade, a recusa de arcar com o peso da existência, o sonho gnóstico de transfigurar a ordem das coisas por meio da auto-exaltação psicótica e de truques mágicos como a “reforma do vocabulário”.

 

Não espanta que a política produzida por essas pessoas seja uma contradição viva, uma imensa engenhoca entrópica que cresce por meio da autodestruição e se inebria de vanglória na contemplação das próprias derrotas.

 

Nenhuma exploração capitalista, por mais “selvagem” que a rotulassem, conseguiu matar de fome multidões tão vastas quanto as que pereceram durante a estatização da agricultura na URSS, o “Grande Salto á Frente” de Mao Tsé-Tung ou os experimentos socialistas em vários países da África. A “luta contra a miséria” continua sendo o principal pretexto moral do socialismo, mas a verdade é que a maior contribuição do socialismo à vitória nessa luta seria simplesmente cessar de existir.

 

Do mesmo modo, o protesto inflamado contra qualquer violência antissocialista é um persistente leitmotiv do discurso de esquerda, mas nenhum regime direitista jamais matou, prendeu ou torturou tantos militantes esquerdistas quanto Stalin, Mao, Pol-Pot ou Fidel Castro. É uma simples questão de fazer as contas. Se os socialistas tivessem um pingo de respeito por seus próprios direitos humanos, voltariam para suas casas e deixariam que a boa e velha democracia burguesa os protegesse contra a tentação suicida de implantar o socialismo.

 

Resultado de imagem para o paradoxo esquerdistaDo mesmo modo, quando os esquerdistas começam a falar em “paz”, a prudência recomendaria que se começasse a estocar comida no porão para a próxima guerra em que os seus líderes os estão metendo naquele mesmo momento. O movimento pacifista encabeçado pelos partidos comunistas da Europa nos anos 1930 foi um truque concebido por Stalin para dar tempo à Alemanha de se rearmar com a ajuda soviética e destruir a “ordem burguesa” do velho mundo. Milhões de franceses idiotas gritaram em passeatas e agitaram as bandeirinhas brancas sem saber que isso era o passaporte para o matadouro. Os tratados que, atendendo ao clamor de uma geração inteira de jovens “enragés” (loucos), puseram fim aos combates no Vietnã em 1972 e deram um salvo-conduto para que os comunistas invadissem o Vietnã do Sul e o vizinho Camboja e matassem aí três milhões de civis, quatro vezes o número total de vítimas civis e militares de guerra.

 

Enganam-se aqueles que enxergam na novilíngua (newspeak) de George Orwell apenas um truque publicitário concebido por líderes maquiavélicos para induzir militares estúpidos a aceitar a guerra como paz, a tirania como liberdade. Esses líderes maquiavélicos não têm nenhum controle sobre o processo, que, com raras e inevitáveis exceções, termina por arrastá-los e destruí-los no meio de suas vítimas. O paradoxo autodestrutivo está no centro de cada alma militante porque está na raiz mesma do movimento socialista, que nasce da aspiração gnóstica à supressão do mundo físico e se condensa na proclamação absurda de Hegel: “ O ser, na sua indeterminação, é o nada”, uma confusão patética entre discurso e existência, destinada a ter as mais monstruosas conseqüências intelectuais e históricas. O puro newspeak já marca sua fórmula ostensiva na fórmula de Engels, “a liberdade é o reconhecimento da necessidade”, que inspirou tantas acusações falsas nos Processos de Moscou (nome pelo qual ficou conhecida uma série de julgamentos dos opositores de Josef Stálin ocorridos entre 1936 e 1938 na União Soviética, durante o Grande Expurgo) e cujo sentido último, de ironia verdadeiramente demoníaca, aparece com nitidez fulgurante no comentário de Bertolr Brecht: “Se eram inocentes, mais ainda mereciam ser condenados”. Brecht, aliás, foi aquele mesmo que resumiu com cinismo exemplar a essência da moral socialista: “Mentir em favor da verdade”. Experimente fazer isso e, é claro, você nunca mais vai parar de mentir.

 

Resultado de imagem para o paradoxo esquerdistaAlgumas regras usuais do leninismo ilustram esse cinismo na prática diária: “Fomentar a corrupção e denunciá-la” e “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é” resumem às mil maravilhas a história do nosso PT, que cresceu pelo discurso de acusação moralista ao mesmo tempo que montava uma máquina de corrupção de dimensões faraônicas, perto da qual os velhos políticos ladrões começaram a parecer meninos de escola culpados de roubar chicletes.

 

 

Era inevitável que, com o tempo, a “forma mentis” auto-negativa do movimento esquerdista se cristalizasse numa fórmula estratégica simples, ingênua até, que, por ser simplória fosse de aplicação fácil e lucrativa, reprodutível em escala mundial por simples automatismo.

 

Essa estratégia, cujo nome é hoje proclamado abertamente pelo Sr. Hugo Chavez, é a “guerra assimétrica”. Ela consiste, como explica Jacques Baud em “La Guerre Assimétrique ou La Défaite Du Vainqueur”, em transformas as derrotas militares em vitórias políticas por meio de um ardil psicológico: outorgar a um dos lados, sob pretextos edificantes, o direito incondicional a todos os crimes, a todas as brutalidades, a todas as baixezas, e desarmar o outro por meio de cobranças morais paralisantes.

 

O que nem os praticantes nem os colaboradores passivos nem as vítimas desse ardil parecem perceber é que ele traz em si a prova definitiva da superioridade moral do adversário no mesmo momento em que acusa seus supostos crimes e iniqüidades. É claro, se o acusado não fosse moralmente sensível, consciencioso, escrupuloso, seria impossível inibi-lo mediante o apelo a seus deveres éticos. E, se o acusador fosse por sua vez aberto a esses mesmos deveres no plano da sua própria conduta, se sentiria igualmente travado por escrúpulos e não haveria assimetria nenhuma. É justamente o fato de dispensar-se das obrigações morais exigidas do inimigo que dá ao praticante da “guerra assimétrica” a vantagem estratégica da sua posição. É essencial para o sucesso desse ardil que o discurso da acusação seja feito sempre pelo culpado contra o inocente, pelo criminoso contra a vítima. O público e a totalidade dos colaboradores passivos usados como caixas de ressonância do moralismo indignado nem de longe se dão conta disso, mas o fato é que, quanto mais veemente a acusação, maior a malícia do acusador e mais irrefutável a prova de seus crimes. A assimetria consiste precisamente nisso.

 

Resultado de imagem para o paradoxo esquerdistaUm exemplo didático, colhido da guerra entre Israel e o Hezbollah, aparece no contraste entre as atitudes dos dois lados no que diz respeito às vítimas civis. Enquanto na mídia ocidental os israelenses são condenados como monstros porque mataram acidentalmente trinta civis num bombardeio, em países islâmicos as matanças deliberadas de civis israelenses pelos mísseis do Hezbollah são comemoradas como atos meritórios. Os terroristas sabem que as nações ditas infiéis, pecadoras, têm sentimentos morais, enquanto eles próprios, os santos, os eleitos, não têm nenhum e não precisam ter nenhum. Sua moral consiste apenas na glorificação descarada dos próprios crimes e é ela que lhes dá a vitória na “guerra assimétrica”.

 

Outros exemplos mais acintosos mostram a passeata de militantes palestinos em Londres pedindo a extinção de Israel, ou portando cartazes do tipo “Massacre aqueles que insultam o Islã”, “Degole aqueles que insultam o Islã”, “Mate aqueles que insultam o Islã”, “Extermine aqueles que difamam o Islã”, ou “Esteja preparado para o verdadeiro Holocausto”,  enquanto na própria comunidade judaica muitos se sentem inibidos de desejar em público a vitória de Israel, preferindo fazer discursos tímidos e genéricos em favor da “paz”; elas mostram a verdadeira face da ideologia radical islâmica, que a mídia ocidental, colaborando na “guerra assimétrica”, esconde para dar feições mais humanas aos terroristas e criar no mínimo uma impressão enganosa de equivalência moral. Mas, na verdade o que se esconde sob os pretextos mais sublimes dos terroristas é um novo um novo Holocausto, de proporções colossais, e a liquidação de tudo o que conhecemos como liberdade e direitos humanos. 

 

Olavo de Carvalho

 

 

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