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02/07/2017

Poesia de Anna Akhmatova

O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO


O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO

 

 

 

 

 

 

Nascida em Odessa no ano de 1889, Anna Akhmatova destacou-se como uma das maiores poetas russas do século passado. Suas poesias expõem as dificuldades que obteve para escrever no período stalinista, bem como na tentativa de consagrar-se no ramo literário que era apenas ocupado pelos homens. Ela não foi apenas uma poetisa: foi escritora, especialista em literatura, crítica literária, tradutora. Numa época em que a mulher ainda não havia dado seu grito de independência, Anna já tinha uma carreira repleta de atividades. Além de sua criação artística, Anna Akhmatova ficou conhecida também por seu destino trágico. Apesar de ela própria nunca ter estado presa ou ter sido exilada, a repressão comunista atingiu duramente três pessoas muito importantes em sua vida: seu ex-marido e pai de seu filho, com quem foi casada de 1910 a 1918, o poeta russo Nikolai Stepanovitch Sumilyov, fuzilado em 1921. Também o escritor e estudioso de arte Nikolai Nikolaevitch Punin, com quem teve uma união de 15 anos e uma filha foi atingido: ele foi preso três vezes e morreu num acampamento de prisioneiros em 1953. Finalmente, o filho de Anna do primeiro casamento, Lev Nikolaevitch Sumilyov, historiador soviético, esteve preso por mais de 10 anos entre as décadas de 30 e de 50. Essa vida trágica e sua experiência de mãe e mulher de “inimigos do povo” é refletida em uma de suas poesias mais famosas, “Requiem” 

(http://www.literaturarussa.com.br/2011/10/requiem-de-anna-akhmatova.html ) .

Akhmatova pertenceu ao movimento denominado de “akmeísmo”, corrente oposta ao simbolismo e ao futuro, em voga naquele tempo. Ela faleceu em 1966.

 

 

 

 

 

O Canto do Último Encontro

 

 

Sentia-me sem forças, gelada,

mas os meus passos eram leves.

Na mão direita tinha a luva

da mão esquerda, ao partir.

Eram realmente tantos degraus?

Eu sabia que eram só três!

O outono abraçava os plátanos

e murmurava:”Morre comigo!”

É o meu destino

que me enganasse e me traísse.

Eu respondi: “Oh, meu amor!

Eu também…Contigo morrerei…”

Este é o canto do último encontro.

Olhei para a casa escura,

Só no meu quarto, amarelo e indiferente,

ardia o fogo das velas.

Vinte e um. Segunda- feira. É noite!

No escuro uns contornos de cidade.

Algum vagabundo escreveu

que na terra pode haver amor.

E por tédio ou preguiça,

todos acreditaram e assim vivem:

esperam encontros, temem adeus

e cantam canções de amor.

Mas a outros revela-se o enigma,

e o silêncio repousará sobre eles…

Descobri isto por acaso

e desde esse momento sinto-me mal.

Ouvi uma voz. Falava confiante,

Murmurando: “Vem,

deixa a Rússia para sempre.

Eu limpo o sangue das tuas mãos,

do coração arranco o negro pejo,

com outro nome cubro

a injúria e a dor da derrota.”

Tapei os ouvidos com as mãos,

para que essas palavras indignas

não profanassem o meu espírito aflito.

 

 

(Traduzido por Manuel de Seabra)

 

 

 

 







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