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16/06/2017

Artigo de Paulo Monteiro

DIGRESSÕES MUSICAIS SOBRE DOIS MUNDOS (Parte II)


DIGRESSÕES MUSICAIS SOBRE DOIS MUNDOS (Parte II)

 

 

 

A recente e pioneira vitória do português Salvador Sobral no Festival de Música da Eurovisão de 2017, com a cativante música “Amar pelos Dois”, da autoria da irmã dele, Luísa Sobral, instigou-me a uma reflexão assaz “viajante” sobre Tempo e Espaço em dois universos quase que inteiramente antagônicos. E, eis que, levado pela doce e terna quase-valsa desse português, cujo estilo de interpretação lembra tanto Caetano Veloso, pairo, mais uma vez, sobre dois mundos cujas trilhas colidiram num passado distante, e, quase cinco séculos após, definiram de forma marcante o meu destino e os de vários de meus familiares e antepassados mais próximos. 

 

Longínquos são os tempos em que Madalena Iglésias e Simone De Oliveira, as duas Rainhas do Rádio lusitanas, disputavam palmo a palmo a preferência dos apreciadores da Música Popular Portuguesa, na década de 1960. Como o fado, a tradicional música do país, dependia bastante do brilho da eterna diva, Amália Rodrigues, e, devido às suas características específicas, pontificava quase que restrito às típicas casas de fados dos bairros lisboetas, só vindo a adquirir uma roupagem mais moderna e universal décadas depois, através do grupo Madredeus, a MPP da época mantinha-se relativamente inexpressiva. No entanto, poucos portugueses, que já tenham cruzado a fronteira dos 60 anos, terão esquecido que Simone de Oliveira chegou a despertar palpitações de vitória em toda a população portuguesa, nesse mesmo Festival da Eurovisão, quando concorreu com a música “Desfolhada” do saudoso compositor, José Carlos Ary dos Santos, em 1969. Esperança vã, a cada ano tornada mais dolorida por obra de sucessivos insucessos das pretensões lusas e suas frustrantes classificações nos últimos postos desse festival.

 

Não causa tanta surpresa, portanto, a natural e formidável onda de ufanismo, acalentada pela mídia local, que tomou conta do país logo após o anúncio da consagradora vitória da dolente música dos Sobral. Vejam bem, sem a menor intenção de querer provocar competições ególatras entre as duas nações, e muito menos expressar favoritismo por uma ou pela outra, e sim apenas para alinhavar alguns diferenciais que as distinguem, o que, na verdade, é o leitmotiv dessa nova digressão transcontinental, não apenas musical, mas por ela iniciada, eu diria que talvez um feito similar não causasse comoção tão acentuada no Brasil, país que se orgulha de ter um acervo riquíssimo em Música Popular e de ser a pátria de um dos maiores gênios da Música Popular Internacional, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, e certamente já um pouco mais acostumado ao sucesso mundial da sua música desde que o memorável concerto de Tom Jobim & Trupe Ilustre incendiou a noite do Carnegie Hall, em Manhattan, colocou a Bossa Nova – que muitos dizem ombrear em qualidade com o “jazz” norte-americano – nas vitrolas dos connoisseurs mais requintados, no roteiro das mais elegantes casas de “shows” e de música do mundo, e abriu as porteiras do mercado fonográfico internacional para artistas do quilate de Chico Buarque, Caetano Veloso, João Gilberto, Eumir Deodato, Sérgio Mendes, Roberto Carlos, Maria Bethânia, Airto Moreira, Flora Purim e vários outros com carreiras já consolidadas fora das fronteiras nacionais.

 

Sem desmerecer um centímetro sequer o feito e a qualidade da música dos Sobral, não há como não credenciar o enlevo dos portugueses pelo ídolo instantâneo à decantada angústia de ser pequenino que palpita em cada coração lusitano, potencializada pelo onipresente “sebastianismo” fatalista, que impregna a alma portuguesa. Não que isso seja necessariamente ruim, como o passado glorioso do país assim o demonstra, quando essa mesma angústia impulsionou as frágeis naus portuguesas a enfrentar os terrores do Adamastor e os muitos perigos dos mares desconhecidos de outrora, para “passar muito além da taprobana”, como reza o canto imortal de Luís Vaz de Camões, chegando até a dividir um império hegemônico nos séculos XV e XVI com a rival e vizinha peninsular, o reino de Leão e Castela daquela época. No entanto, mesmo com essas conquistas e com tantas outras contribuições portuguesas ao engrandecimento da Humanidade, em campos tão variados quanto os da Literatura, da Medicina, da Arquitetura e dos Esportes, por exemplo, ainda se percebe certo sentimento de inferioridade, absolutamente injustificável, mas que teima em transbordar e contaminar todas as áreas de atuação do povo d’além mar. Talvez um reforço na auto-estima e no otimismo pudesse ser uma injeção bem vinda na auto-imagem dos lusitanos.  

E, para tal, poderiam os portugueses muito bem copiar o exemplo e a atitude positiva dos descendentes dos outrora colonizados cidadãos da Terra de Vera Cruz, pelo menos nesse quesito, já que em muitos outros certamente não haverá muita conveniência em tomar os brasileiros como exemplo, atualmente. De fato, malgrado o “complexo de vira-lata” sempre presente no inconsciente coletivo tupiniquim, a auto-estima e o otimismo são ingredientes que dificilmente escasseiam por cá, e não raro nos credenciamos como um dos povos que se avalia a si próprio como dos mais felizes do mundo, apesar de tantas adversidades. Poder-se-ia dizer que o Carnaval, que teima em incendiar o país, testemunharia o paroxismo dessa alegria de viver. É tanto o desvairo por ele causado, que todo o país sabe que aqui o ano de fato só se inicia após se terem celebrado as folias reservadas ao “tríduo momesco”. Para o bem ou para o mal. Algo absolutamente impensável para a mentalidade cartesiana européia. Mas, não para a do brasileiro, que como diz a letra daquela marchinha famosa de Gilberto Gil, sabe que em fevereiro tem carnaval, quer chova, quer faça sol.

 

E é uma felicidade legítima, que derrama leveza, sensualidade, alegria e picardia bem humorada ao cotidiano da nação. Particularmente, no que tange à mulher brasileira. Talvez por isso, mais do que por qualquer outra coisa, sejam essas características que estão na origem da pecha negativa e injusta da brasileira em países estrangeiros. De fato, a fêmea brasileira, além de humorada e extrovertida, é naturalmente livre, vaidosa e despudoradamente preocupada com seu corpo e sua beleza, algo que provavelmente ainda choca e confronta os padrões vigentes, mesmo nas sociedades ocidentais, notoriamente mais conservadoras e discretas em seus costumes. Não causa espanto, portanto, que um recente anúncio de emprego de uma empresa portuguesa que procurava atendentes de marketing no mercado, tenha causado tanta polêmica na nação irmã, quando deixou claro que dispensava as portuguesas e dava preferência a mulheres de outra nacionalidade, especialmente se fossem brasileiras. Ha! Ha! Ha! Parece piada pronta, mas não é. Tais polêmicas, porém, em pouco ou nada afetam a cobiça dos espécimes masculinos lusitanos, alheios a essa disputa e inebriados pelo à vontade caloroso das “brasucas”, mas, em contrapartida, atraem a ira e o despeito dos femininos, que precisam correr atrás da concorrência e que, apesar da decantada beleza das portuguesas, saem para a disputa um tanto inferiorizadas, dadas as conhecidas e imutáveis características de volubilidade predatória do sexo masculino, em qualquer parte do planeta.

 

Regionalismos sexistas à parte, essa mesma auto-estima elevada do brasileiro, no entanto, por vezes pode resvalar para a egolatria mais primitiva e para a auto-suficiência e conferir-lhe certa superficialidade, indisfarçável falsidade oculta sob a fina camada do verniz social e uma irresponsabilidade anárquica que beira a negligência com educação e princípios. Tudo isso permeado por doses elevadas de hipocrisia. Ah! A hipocrisia! Essa palavra de passe na cultura nacional que é a chave para acalentar e acobertar tantos vícios que se transformaram em verdadeiro esporte nacional, como o oportunismo, a esperteza, a malícia impiedosa e o famoso “jeitinho brasileiro”, celebrizado publicamente pela assim conhecida Lei de Gerson – a tal que prega que você tem que levar vantagem em tudo – e que transforma o contato social no Brasil num autêntico pântano de areia movediça, aonde nada do que é dito se escreve e as palavras podem adquirir um sentido inteiramente diverso daquele que expressam. É o país que utiliza o termo “apareça” no automático, mesmo quando tudo o que se deseja é ver a criatura pelas costas. É o país que inventou o feioso Macunaíma, incorporado no cinema pelo finado e saudoso Grande Otelo, mas que se passa ostensivamente por “lindo” e “maravilhoso” nas redes sociais. É o campo de pesquisa dos sonhos para analistas, psicólogos e psicanalistas que se esmeram em “catar” o sentido oculto das coisas, naquilo que não é dito ou se subentende nas entrelinhas. E é, também, o país onde particularmente os homens adquiriram a fama inteiramente justificada de ser pouco confiáveis, ética e moralmente. Está aí a recente história política do país exposta vergonhosamente em todas as mídias do planeta que comprova isso abertamente. Imaginar que tal fama se restrinja à classe política, nada mais é do que recorrer à redundância da já citada hipocrisia nacional. Já o português, apesar de formal, direto e quase retilíneo, com um senso de humor por vezes “duro” e pouco imaginativo para os padrões brasileiros, goza da justa fama de ser mais confiável e mais “sólido” em suas atitudes e convicções. É quase possível dizer que merecer o afeto e a amizade de um português pode não ser tarefa tão simples, mas, quando conquistada, ter-se-á um amigo para sempre. É bastante duvidoso que o mesmo possa ser dito a respeito dos comunicativos e sempre afáveis brasileiros.

 

É perfeitamente possível imaginar, também, que uma quase unanimidade de pessoas se sentiria bastante “aliviada” por fugir ao cotidiano de guerrilha urbana carioca para flanar descontraidamente pela segurança absoluta das vielas de Alfama, mas é improvável que haja essa mesma unanimidade de pessoas, que opte por trocar a calmaria bucólica dos campos alentejanos por uma caipirinha ao som do esfuziante axé baiano, numa das muitas praias paradisíacas do litoral brasileiro. De fato, apesar da descontração aqui reinante, é necessária mente aberta e alguma capacidade de adaptação do europeu para usufruir com prazer de todas as nuances e contrastes que formam a realidade tropical da ex-colônia, mas, por outro lado, não duvido que o caminho inverso possa ser, talvez, até mais penoso para o cidadão sul-americano, pouco afeito à sisudez e ao rigor formal da conduta na pátria-mãe.

 

O Tempo é também uma condicionante inteiramente dissonante entre os dois países. Se no país europeu, ele parece acompanhar o tom melancólico e queixoso do fado mouro, que imprime aos costumes a sensação de que por lá nada aparenta querer mudar - pelo menos na essência, não na forma, subentenda-se, já que a modernização estrutural do país, pós 25 de Abril, é notória - no Brasil, em contrapartida, ainda se aguarda a chegada do século XXI e do Progresso, que teima em não dar as caras por conta da estagnação econômica que se instalou nos últimos anos, mas, paradoxalmente, é a empolgação miscigenada do samba, do frevo, do axé, do maracatu e do carimbó que, indiferente a tal casuísmo, comanda os humores do país  e transmite uma sensação de mutabilidade sempre presente – no bom e no mau sentido. Pode ser apenas uma mera questão de percepção e não que uma seja necessariamente mais desejável do que a outra. No fundo, é apenas uma questão de diferença de perspectivas, da forma com que nos posicionamos ante tais perspectivas e das opções de cada pessoa perante elas, sejam essas escolhas conscientes ou não.

 

Se a noção de Tempo varia de uma forma que pode ser simplesmente enganadora, o mesmo não poderia ser dito da ostensivamente desigual noção de Espaço. Da pequenez geográfica do território português, que, apesar das muitas diferenças espremidas e amontoadas entre suas várias regiões continentais, em momento algum nos impede de constatar uma coesão uniforme que jamais permite duvidar estarmos nós no mesmo país, à imensidão continental dessa utopia distópica chamada Brasil, com diferenças abissais entre suas diversas regiões, há muito mais do que um vasto território a separar-nos do Oiapoque ao Chuí e apenas o fator lingüístico a unir-nos. Atrever-me-ia até a afirmar que é possível encontrar mais semelhanças entre Portugal e a Região Sul do Brasil do que propriamente entre essa região meridional e o Nordeste ou o Norte deste nosso país-continente, por exemplo.

 

Que fique bem claro, para quem se sentiu pessoalmente ofendido com algumas colocações aqui feitas, que, para além de uma visão pessoal feita por alguém que viveu longos anos em ambos os países, sobre um segmento específico da população - a classe média relativamente instruída à qual pertenço - e que procurou ser imparcial, na medida do que isso é possível numa análise pessoal e, portanto, necessariamente limitada, tratamos exclusivamente de estereótipos, comumente identificados com aquilo que poderia ser descrito como a “alma coletiva” de cada povo. E estereótipos são apenas isso: estereótipos.  Por definição, excluem qualquer generalização. O que equivale a dizer, portanto, que é perfeitamente normal e natural depararmo-nos com um ou vários portugueses absolutamente festivos e/ou de natureza mais “escorregadia” e menos confiável, assim como também se encontra uma imensa quantidade de brasileiros introvertidos e/ou com uma integridade moral e ética inquestionável. Mantermo-nos distantes dos preconceitos e pré-julgamentos é sempre desejável, o que não nos impede, no entanto, de tecer um panegírico ou uma crítica abalizada, baseada na experiência pessoal e em parâmetros estatísticos genéricos.

 

Ademais, como já deixei bem claro, me é inteiramente impossível optar por uma ou outra das duas nações. Se, por um lado, o relativo caos e a instabilidade emocional e social brasileira me causam, não raro, certa vertigem e me levam a suspirar pela segurança, pelo maior amadurecimento da sociedade e pela estabilidade oferecida em Portugal, por outro, essa alma de peregrino aventureiro rebela-se contra a monotonia do “déjà vu” e convida-me à vastidão dos espaços amplos e ao apelo sempre palpitante do desconhecido e do imprevisível.

 

Talvez por isso, quiçá em próxima oportunidade, esse mesmo espírito, que um dia cavalgou pelo inverno branco das estepes russas e ora encarnou como filho de Delcy & Fernando, com o coração pendulando entre os verdes aconchegantes dos campos minhotos e a luxúria de tirar o fôlego dos verdes amazônicos, anseie por nascer às margens do Reno, com o nome de Fritz, filho de Magda & Karl, ou, quem sabe, no Oregon, com o nome de Mary, filha de Martha & John. Não duvido um segundo sequer, que opte por pairar sobre a Terra do Sol Nascente, que tanto admiro. Ou celebre apaixonadamente a negritude numa savana africana. Ou defenda com igual zelo a cultura maori da Terra Média neozelandesa.

 

Quem sabe viver seja de fato esse eterno aprendizado sob a sábia batuta de uma sanfona randômica, que nos leva permanentemente a oscilar entre a paixão e o desapego, até um dia fundir-se ao Todo? Que seja então! O Universo é minha casa e Gaya é meu playground. Criado tão belo e fascinante pela Suprema Bondade, que chega a aliviar a frustração de não ter como escapar ainda às conseqüências de tantas escolhas mal feitas. Afinal, que razão para tanto desespero teremos, se

“Podemos ser o aqui e o agora/E o amanhã que importa/ Se já somos o espaço/ E o infinito nos basta?”.

 

 

***  Dedicado  a  Álvaro  Farias

 

 

 

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